sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

um poema



Distingo que no corpo do teu corpo há a pérola
do século dezassete que contemplo entre os dentes
dos corpos móveis das visões. Aquilo que no serão brilha
entre sombras mantidas.

Eles cintilam por estarem a ser objectos perante o sujeito,
há um vórtice na garganta. Sorves a água, quem beber
sacia-se, dizia-me o emissário, pois apenas sou ouvinte.





Fiama Hasse Pais Brandão
Homenagemàliteratura
1976- edições limiar

imagem: Gustav Klimt

Considerações sobre Crítica de Arte

Quem tiver um conhecimento da História da Arte sabe que as coisas inicialmente se definiam por séculos: o Renascimento, o Barroco… etc. Depois começaram-se a definir por décadas. Os dias têm na mesma 24 horas, mas o tempo é “mais rápido”. Mas depois do modernismo, as pessoas dentro de uma vida, passavam por vários movimentos. Podiam ser dadaístas, depois passar pelo cubismo, pelo abstracto… por aí.
Depois deixou de falar-se destas questões e apareceram expressões como “um artista da instalação”. Ora, o artista já não era “ele”, passou a ter uma especificidade técnica, um trabalho ligado à performance, à body art, ao site specific…
Depois começou a ser os gays, as lésbicas, as feministas… (Só não vieram os machistas, porque esses eram todos os que já existiam…). Depois começa a ser os gays que fazem isto, os gays que fazem aquilo, as lésbicas que são feministas, as que não são… Tudo assim, cada vez mais emaranhado. Os que são separados, os que têm três filhos, os que cozinham…
Ou seja, não se analisa, conta-se a história da pessoa.
O que é que isto faz? Dá muito menos trabalho.
E quando essa fórmula não resulta, arranjam o neo. É tudo neo, neo, neo, neo qualquer coisa.
(…)
Em 1997 ou 98, o Óscar Faria perguntou-me se eu achava que era neo-pop. E eu respondi-lhe que preferia neo-blank.

RUTE ROSAS
Numa entrevista concedida a mim, ao Vasco Barbedo e à Ana Sofia Guimarães a 19 de Março de 2008

Primavera



O homem funerário tirou respeitosamente o boné preto
quando o morto entrou no cemitério
e do boné sairam dois coelhos brancos
um ramo de tulipas
três cravos amarelos
e um cavalo árabe das noites.
É Primavera disse o cavalo árabe das noites
e comeu as tulipas e os cravos
e assustou os dois coelhos brancos
É Primavera
e as pessoas começaram a morrer
porque gostam de flores e de sol
e de música lenta





Y. K. Centeno
O Barco na Cidade
guimarães- col. poesia e verdade, 1965
imagem: Paul Klee

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

No barroco, as freiras a escrever até pontuavam...2



Cobridme de flores
Que muero de amores.

Porque me mi aliento el ayre
No lleve el olor sublime,
Cobridme.

Sea porque tudo es uno,
Alientos de amores e olores,
De flores

De azucenas y jasmines
Aqui la mortaja espero,
Que muero.

Si me perguntais de que
Respondo em dulces rigores:
De amores.



Soror Maria do Céu
Enganos no Bosque, Desenganos no Rio, Em que a Alma Entra Perdida e Sai Desenganada
Lisboa, 1736
imagem: Graça Martins

78.

Essa mistura néscia e branca, a reiteração infantil da íris ocupada de alguém, outra íris, a cegueira solar, glóbulo invicto, ou abraço.

Maria Velho da Costa
Da Rosa Fixa
1978- moraes

vídeos que me fazem rir (segunda leva): Mariah Carey- Sweeatheart

Visual dos anos noventa inciais àparte, há coisas aqui que ainda não consigo explicar.

No Guggenheim, cenário a puxar para o foleiro (Como só o Frank Gerry conseguiria produzir.), mas carros algures, no mesmo espaço onde a Mariahzinha está deitada a exibir as pernas que o criador lhe deu. Aqueles movimentos que devem ser a versão dela de dançar também são estranhos e não acompanham o ritmo da canção. Mas o mais inexplicável é aquele gato persa branco. Será ele o sweetheart de que ela fala? A verdade é uma: a cena é estranha. E, se um dia pudesse fazer uma pergunta a miss Carey, seria sinceramente o que faz aquele gato ali.

Nem percebo por que nunca lhe pergutaram...

vídeos que me fazem rir (segunda leva): Rhianna- Russian Roulette

Quando José Saramago disse que a bíblia era um manual de maus costumes e um catálogo de crueldade, este vídeo ainda não tinha saído. Porque a bíblia é inofensiva comparada com este vídeo. E é um ateu/ anti-religioso que está a dizer isto...

Jogar à roleta russa a dois, com o namorado com quem não se anda muito feliz, parece-me o tipo de coisas que nem depois do dobro dos shots de absinto que costumo tomar eu faria.

No meio de tudo isto, as imagens disconexas da menina a revolver-se para longe e para perto do foco de luz parecem ficar explicadas pela tensão de a qualquer momento ser assassinada por uma bala que ela mesma dispare. O que aliás, contraria aquele mito urbano de que quando estamos prestes a morrer vemos a nossa vida inteira,

Claro que se fosse eu, estaria provavelmente a delirar com os cigarros e a coca-cola que nunca mais iria tomar. Mas, de novo, eu não entraria num jogo amoroso destes. Preferiria aquele em que quem perder se despe. Mas estou certo de que o Marquês de Sade gostaria mais da versão da Rhianna.

vídeos que me fazem rir (segunda leva): J.Lo- Love Don´t Cost a Thing

Ao que se percebe da conversa inicial, o namorado da minha querida Jennifer envia-lhe uma pulseira para se desculpar por não poder encontrar-se com ela... outra vez. A mulher comum faria das duas uma: ou, caso fosse mais materialista e vingativa, pegava em toda a tralha com que ele se desculpou ao longo da relação e ia-se embora ou, caso fosse e firme, deixaria a tralha toda e ia embora na mesma.

Indecisa, Jennifer decide-se por um meio-termo. Pega realmente nas tralhas dele, mas, ao sair de carro, vai-a atirando para a estrada. É aqui que bate o ponto: podia ter vendido, ou ter dado para a caridade... para quê, se se pode atirar pela janela do descapotável?

Mais ainda, onde pára a polícia de trânsito? Uma sujeita transtornada a atirar joalharia pela janela do carro pode causar acidentes...

Algo não bate certo. E não o facto de ela dizer "if I wanna floss I got my own", frase que, se imaginarmos exactamente como é dita, estraga um pouco a ideia de femme fatale da menina e que, se imaginarmos que ela diz que não precisa que seja ele a fazer-lho é pura e simplesmente vomitiva...

vídeos que me fazem rir (segunda leva): Nelly Furtado- Maneater

como os senhores do Blitz muito bem viram, foi num ápice que Nelly Furtado passou de boazinha a boazona. Mas, mais que isso, este vídeo, que lançou "Loose", mostra uma boa táctica de engate. Perder a trela do cão e correr atrás dele. Resultado, vai-se ter a uma cave cheia de gente que está a morrer por se roçar em tudo o que mexe. E tudo mexe. Devoradora de homens ou não, ela parece movimentar-se por ali, se bem que chega ao fim já no telhado e sozinha. Pois, pois... provoca provoca e quando é altura de avançar, descarta-se. Típico...

vídeos que me fazem rir (segunda leva): Leona Lewis- Bleeding Love

Já que uma Mariah Carey não chegava para me atormentar os pesadelos mais traumatizantes, aparece uma em segunda mão, que, tal como a primeira, sangra amor por todos os poros. E, como se o tom melodramático da canção não chegasse, o vídeo presenteia-nos com todo o tipo de imagens em que as brigas mortíferas entre enamorados nos levam às lágrimas, de tão colados ao cliché. Sem comentários

41.

Ah como todo o prazer mais vivo, o rutilante na memória, se ostenta do terror da morte, um desvio de olhos, prelúdio da ausência, do ser visto.

Maria Velho da Costa
Da Rosa Fixa
1978- moraes

No barroco, as freiras a escrever até pontuavam...


Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

Soror Violante do Céu
Rimas Várias
(Rouen, 1646)
imagem: Graça Martins

um poema


Oh amor de todos os amores
ácido como um banho quente
longo como um naufrágio
doce como sumo de floresta.

Não se pode estar na poesia
como numa prisão
pobre contagem de cada dia
pelos dedos duma bela sem senão
e nenhuma parede onde riscar
o par do número par.

Nenhum espelho
nem a vontade de o quebrar.

Regina Guimarães
Algum(ns) Texto(s) Avesso(s) à Ideia de Obra
in Vozes e Olhares no Feminino, Afrontamento, 2001
imagem: Kazimir Malevich

164.

Extrema conveniência do poeta entre as árvores, essa ascensão lentíssima.

Maria Velho da Costa
Da Rosa Fixa
1978, moraes

domingo, 6 de Dezembro de 2009

acabadinha de lançar


Brilho no Escuro, número 3, de inverno.
Poemas de Manuel de Freitas, João Borges, José Luís Peixoto, Nuno Brito, Ana Luísa Amaral e Isabel de Sá.
A capa e as ilustrações ficam a cargo de Graça Martins.
O lançamento, ontem, no Maus Hábitos, contou com apresentação de Isabel de Sá e leituras, brutais, de Isaque Ferreira e Ana Luísa Amaral.

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009



Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.



Fiama Hasse Pais Brandão
Área Branca
1970- arcádia


imagem: Odilon Redon

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

indisponível em Portugal, mas acabado de saír

michelle branch- this way

de "everything comes and goes"

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Revistas com Poemas Dentro e Blogs na net

Brilho no Escuro: http://brilhonoescuropoesia.blogspot.com/

Cràse:
http://www.craseliteraria.blogspot.com/

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

the cranberries- stars

um vídeo muito engraçado para uma música muito boa

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

um poema




Quando alguém se senta numa mesa riscada por golpes, mossas deixadas por terrinas de esmalte, o azul desvincado como a tinta de certos túmulos se torna com os séculos indivisa, deve ter a certeza que a memória espreita disposta a sacrificá-lo no cadinho onde tudo se desvenda.
Para alguém que se senta assim, entregue à confusa geometria que rastejou a mesa de antigos embates do vidro grosso violentamente empurrado para fora, da travessa puxada muito cedo em direcção à fome, a morte pode tomar a forma de um agitado peixe que pede mais e mais que o alimentem. E quem se decide a ficar sentado frente a tantos riscos, *as marcas sobradas doutros gestos, quem se decide a isso, vai com certeza tentar a memória. Sobre as quatro montanhas, o candidato verá sete cidades que hão-de parecer-lhe, primeiro, fortificadas; cercam-nas altas paliçadas que lembram as muralhas de bambu com que os vátuas pensaram defender as suas casas de argila amassada com bosta. Ao dirigir-se armado naquela direcção, e se conservar vestígios da longínqua aliança que outrora se guardava em arcas que duas filas de seres alados, os anjos, sustentavam encolhidos como morcegos (alguns viravam a cara com ar dissimulado, mas dois olhavam ferozmente quem ameaçasse distender-lhes as asas), verá então que mais sete cidades as têm penetradas como se as muralhas repetissem as células, usando para isso de um ordenado processo cancerígeno.
E, se não desistir, verá que se lhe entregam, pois as cidadades da lembrança estão indefesas e só esperam o nosso ataque para se submeterem, prontas a todas as rapinas.






Fátima Maldonado
Cidades Indefesas
1980- centelha
imagem: Hundertwasser

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

e já que ando numa de revivalismos, é tempo de recuperar a "tia" Marianne

Marianne Faithfull: The Mystery Of Love

do álbum "Before The Poison"

o Drama Box de Mísia

Fanny Ardant declama o poema de Vasco Graça Moura, "Fogo Preso", traduzido para francês. Uma leitura assinalavelmente sensual e rítmica.


um daqueles dias em que

se sai de casa a pensar como está um dia tão bonito, talvez até chova. Depois, entro no café, sento-me na esplanada interior e começa o sol. Uma treta meia triste. A certa altura, dou por mim nisto:

black lab: learn to crawl

que aliás, contém este excerto, que me apetece destacar por nenhuma razão especial:

"can you teach me how to fly?/ cause you see I´m scared to die/ and I´ve only just begun to learn to crawl// Can you teach me how to fight?/ You can keep me up all night/ Would you be there on the ground/ If I should fall?/ Fall for you..."

Mas dada a crueldade de me imporem as radiações solares, decido que essa crueldade deve ser ouvida. O resultado:


Ute Lemper: The Case Continues

um clássico que nunca envelhece. Além disso, contém esta frase que nunca deixa de me parecer brutal:

"My only crime was passion/ Wild and uncontroled/ If sex were an Olympic sport/ We´d have won the gold"

M.H.M. de André Godinho



Passou ontem na Cinemateca de Lisboa o filme “M.H.M.” de André Godinho, documentário sobre Manuel Hermínio Monteiro, falecido editor da Assírio & Alvim.
Sobre o documentário, pouco a apontar, acima de tudo porque consegue perfeitamente cumprir os objectivos a que se propõe. Relatar o percurso de Hermínio Monteiro desde Trás-os-Montes até Lisboa, do curso de Direito ao departamento de vendas da Assírio & Alvim, e do departamento de vendas para a direcção. André Godinho apoia-se em fotografias e depoimentos, essencialmente, e consegue articulá-los bem, e fugir aos lugares comuns deste tipo de inclusões, nomeadamente nas fotografias que, aqui, em nada se assemelham a um slide-show, como poderia ter acontecido.
Os depoimentos de Manuela Correia, José Agostinho Baptista, Luís Guerra, António Costa, Sérgio Godinho, Graça Morais, Manuel António Pina e Luís Miguel Queirós vão dando uma noção de Hermínio Monteiro como pessoa e como editor da Assírio e Alvim, deixando bem claro que não havia realmente uma grande separação entre os dois. A relação com as origens transmontanas é particularmente explorada nos depoimentos de Graça Morais, por exemplo, ao passo que Manuel António Pina e Luís Miguel Queirós incidem mais na relação de MHM com Mário Cesariny de Vasconcelos e Eugénio de Andrade, cabendo a Manuela Correia as abordagens mais pessoais.
Entre vídeos caseiros, entrevistas e fotografias, vamos vendo também uma série de personagens da literatura que contactaram com MHM, de António Ramos Rosa a Nuno Júdice, a Fernando Pinto do Amaral, etc.
Apontar defeitos, penso que só se poderá fazer em relação ao conteúdo de alguns depoimentos. Nomeadamente porque são ditas coisas que ou não são verdade ou não são verdades muito exactas. Pelo menos em três casos:
Primeiro, quando se diz que MHM ou a Assírio e Alvim abriram portas a muitos novos autores. Por norma eu, quando vejo o número zero, penso “nenhum”, mas aparentemente há pessoas que face ao mesmo número dizem “muitos”. Que eu me lembre, a Assírio e Alvim publica quase apenas nomes muito consagrados. Podemos pensar em Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, António Franco Alexandre, António Barahona da Fonseca, Armando Silva Carvalho: todos estes foram publicados na Assírio já depois de serem autores realmente seguros. E mesmo os que não eram exactamente consagrados quando lá começaram a publicar, caso de Manuel de Freitas, também já não eram propriamente “novos autores”. Portanto, não sei muito bem qual a justificação para se dizer que MHM abriu portas a novos autores, e muito menos a “muitos”.
Depois, quando se fala de Hermínio Monteiro como um editor marginal. Isso é extremamente relativo, mas agora que caiu no goto falar de cultura “marginal”, parte-se sempre do princípio que assim é. À época, a Assírio e Alvim seria marginal como a Dom Quixote era marginal. Mas comparada com a &etc que inicia actividade um ano depois da Assírio e Alvim, ou com a Frenesi ou os primeiros tempos da Fenda, tendo todas existido ou existindo ainda paralelamente à Assírio e Alvim, não consigo entender muito bem o conceito de “marginal”. Não me parece que seja muito custoso dizer, como me parece que seria correcto, que Manuel Hermínio Monteiro conseguiu que o facto de dirigir uma editora que para todos os efeitos produzia lucros, e ainda produz, não fizesse do seu catálogo uma feira de best-sellers.
Por fim, a minha favorita, é quando se diz que todos os grandes poetas portugueses passaram pela Assírio e Alvim. Ora, eu podia fazer aqui uma lista de autores que venham na História da Literatura que nunca publicaram na Assírio e Alvim, e não são poucos. Alguns exemplos: António Ramos Rosa, Maria Teresa Horta, Isabel de Sá, Natália Correia, Jorge de Sena, Yvette K. Centeno, Irene Lisboa, Joaquim Manuel Magalhães, Paulo da Costa Domingos, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner… Enfim. Sem demérito para a Assírio e Alvim, a verdade é que nem todos os grandes poetas portugueses passaram pela Assírio e Alvim.
Não que seja culpa de André Godinho, mas de facto, o grande problema deste documentário é o grande problema de qualquer homenagem que se faça: nos depoimentos, as pessoas falam e, para enaltecer, não se importam nem de exagerar nem de distorcer a verdade.
Sem demérito para Manuel Hermínio Monteiro, claro.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

um poema



É um homem muito jovem, de olhos excessivos, onde a ternura se mistura com o medo. Os seus olhos são, por vezes, interrogadores, olhos bandeirantes a resvalar em terreno novo. A boca é ávida e quente. Audácia. Vício. Claridade. O corpo do homem é frágil. Viajando no interior doutro corpo, derramando-se em grito, quase choro. Recomeçando. Quase sem palavras. Quase sem loucura. Como quem desfaz o sonho. Como quem assiste ao lento nascimento de alguém. Seguro. Sem projectos. Fuga adiada. Rejeitada. Homem que bebe o instante, insensível à gelada inquietação.
À volta do homem, os objectos. A mesa baixa, o sofá onde se acumula a roupa em desordem, a aceitação da loucura. Rápida é a maneira do homem se despir do azul. Sem pudor. Homem que entra vagarosamente na audácia de outro espaço. Homem transgressão. Nu, como sem memória. Desfazendo o êxtase com o olhar escorregando no relógio. A pressa. E as palavras dizendo a eternidade.





Maria Graciete Besse
Mulher Sentada no Silêncio
1985, edições Ulmeiro.


fotografia: FLORIA SIGISMONDI

e-mails impensáveis

recebi um e-mail com um excerto de uma música. Este era o excerto:

You know it only breaks my heart
To see you standing in the dark
Alone waiting there for me to come back
I'm too afraid to show
If it's coming over you
Like it's coming over me
I'm crashing like a tidal wave
That drags me out to sea
I wanna be with you
If you wanna be with me
Crashing like a tidal wave
I don't want to be
Stranded

a música é melhor nem dizer qual é, porque mesmo eu não acreditei.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

ouvi num episódio de Ugly Betty, e passei-me

other lives: black tables

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

ao vivo, a cores, e com vitrais... ainda absolutamente... absoluta

Lou Rhodes no seu mais que melhor: They Say

ao vivo, a cores, absolutamente... absoluta

Lou Rhodes no seu melhor: Bloom

ensaio sobre a lucidez

o (breve) texto de Gastão Cruz na edição desta semana do JL. Não tenho por hábito gostar de textos que apareçam na dita publicação, mas, de facto, Gastão Cruz acertou em cheio nos comentários que faz sobre "Caím" de José Saramago.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

um poema



um homem vai morrer e não o sabe.
nós sabemos.
amanhã
amanhã alguém apagará o crime da calçada
mas hoje é dor e luto.
amanhã facilmente esqueceremos.

um homem vai morrer e não o sabe.
e consentimos nós
porque sabemos.


Eduarda Chiote
"Esquemas"
1975- edições Limiar
imagem: Francis Bacon

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

O Manual dos Inquisidores



"Caím" de José Saramago chegou às livrias há quase duas semanas. O caso está complicado. Logo no dia do lançamento, já havia pessoas a manifestar o seu desagrado pelo tema e seu tratamento do novo romance.
O facto de José Saramago ter declarado que, a seu ver, a bíblia é "um manual de maus costumes" e "um catálogo de crueldade" não ajudou. Se já antes as pessoas estavam ultrajadas e a ultrajar um livro que não leram, estas frases de Saramago são a catapulta definitiva que legitima que se fale do livro sem o ler.
Porque o problema maior, penso, não foi o facto de se estar a falar de um livro que não se leu, foi o de estar a falar dum livro que nem se vai ler sequer. E pelos vistos, já nem necessidade disso existe, porque as declarações do autor já servem para os reaccionários lhe caírem em cima.
Mas tudo bem. Entrevista com Judite de Sousa, debate na Sic Notícias com um padre teólogo. Não faltou nada. Para mim, que aprecio sempre um bom escândalo, mas que o aprecio mais ainda se a igreja estiver envolvida, foi um verdadeiro banquete.
Antes de mais, quero realçar a atitude de Saramago, aquando da entrevista com Judite de Sousa. Demarcou-se pelo nível e pela calma com que falou e, acima de tudo, por se mostrar disponível para um debate com qualquer pessoa, partindo do princípio que essa pessoa tivesse lido o livro.
Foi o caso. No dia seguinte, na Sic Notícias, Saramago debate com o padre Carreira das Neves, que além de ministro do senhor na terra, é também teólogo.
Sobre este debate, um apontamento(zinho): Carreira das Neves estava com sérias dificuldades em contrariar José Saramago.
Percebo porquê: pois como se contraria alguém que, para falar, se apoia unicamente na logica? É complicado. O próprio padre admite a existência de evangelhos proibidos, da relutância do clero em colocar o evangelho à disposição e leitura dos crentes, e, no meio de tudo isto, repete repetidamente o mesmo argumento: que não podemos interpretar a bíblia pelo que está lá escrito.
Aí, Saramago lança a cartada mais simples de todas: se é para isso, qual a necessidade da haver texto escrito?
Também particularmente infeliz foi a ideia de Carreira das Neves de comparar a bíblia a qualquer livro, por exemplo os de Saramago. Bem, eu acho que os livros de Saramago, e esta polémica em torno de "Caím" vem comprová-lo, não são sagrados, nem têm uma religião que neles se baseie.


Televisão áparte, há que falar dos jornais. Parece-me que qualquer palerma sem méritos reconhecidos se dá a competência de falar do assunto, mesmo que dele nada perceba. Alguém dizia, numa revista cujo nome agora me escapa, que Saramago era "um bronco" no que toca a política. Na minha opinião, palavras desta categoria não são propriamente dignas de uma coluna de qualquer colunista sério, pelo que a sua utilização é já sintomática do grande disparate que essa coluna era.
Mais supreendente ainda foi o Público, na sua edição da quinta feira da semana passada. Eu, que julgava que o Público era um bom jornal, vi-me absolutamente defraudado. Fica ao nível de qualquer pasquim que se distribui gratuitamente. A começar por Manuel Fernandes, director, que atira com ideias como este livro ser um livro destinado ao esquecimento, a avaliar pelas primeiras críticas (Ou seja, não tem uma opinião própria) e, por fim, atira com a acusação mais estúpida que eu já ouvi: que isto se trata de uma estratégia de marketing. Que eu me lembre, completam-se 11 anos que Saramago ganhou o Nobel. Para o bem e para o mal, ele não precisa de mais marketing, todo o marketing está feito já. E mesmo que não tivesse ganho o Nobel, há que reconhecer que Saramago tem já um público que o lê e que, para todos os efeitos, o respeita o suficiente para não precisar de campanhas de marketing.
Há ainda que ver que Manuel Fernandes tinha o dever de saber daquilo que fala. Não é o caso. Porque se fosse, ele não estranharia, nem atribuiria a ideia de estratégia a "Caím", porque, para quem sabe, já há muito tempo que Saramago se dedica a minar as fachadas com que a igreja se impõe entre nós. E se é difícil encontrar um livro em que este não largue as suas farpas á igreja e ao clero, pelo menos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", já Saramago se tinha insurgido contra a bíblia, num projecto cuja envergadura nada fica a dever a "Caím". Portanto, vir agora dizer que nada disto é a sério e que estamos perante um golpe publicitário só tem um nome: falta de cultura.
Cartas dos leitores, então, isso é que foi. Discursos inflamados sobre Saramago desrespeitar a religião, pessoas que dizem que ele tem inveja porque milhões de pessoas leram a bíblia e ela ficou para sempre na cabeceira, ao passo que os outros livros, como so de José Saramago, chegam e partem. Pessoas que afirmam a falta de inteligência do escritor.


No meio disto tudo, só há uma coisa que eu percebo: são poucas as reações de pessoas que não sejam as que, de facto, dormem com o missal ao lado. Só dessas poderia partir isto, que para mim, é ainda o maior escândalo de "Caím": é que vivemos num país com problemas económicos, com um primeiro-ministro que se recusa a atender aos problemas reais dos cidadãos, onde 120 mil professores saem à rua em protesto e são ignorados, onde hospitais fecham e a saúde se torna cada vez mais um privilégio de classes, onde a exclusão social é ainda uma realidade ignorada, onde temos ainda 10% de analfabetos, onde milhões são dados a quem andou a roubar nos BPI e BPN e por aí, onde o comum cidadão é diariamente manipulado e enganado, onde a cultura não tem existência, onde o desemprego cresce e continuará a crescer. E, no meio de tudo isto, é porque Saramago escreve um romance em que deixa a sua interpretação controversa da Bíblia que surgem discursos inflamados e grandes protestos?
Algo está errado neste país.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

os grandes de seattle estão de volta. e eu com eles

pearl jam- the fixer

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

hoje estou assim

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Falência e Outros Aspectos da Quasi

Parece que a editora Quasi entrou em falência. Já muito se discorreu sobre a editora enquanto esta esteve activa, e mais se discorre agora que termina.
Já que todo o tipo de pessoas está a falar do assunto, portanto, não vejo razões para eu mesmo o não fazer.
Para começar, esta notícia em nada me surpreende. Numa editora que nos habituou à pordução massiva de livros, que saíam às dezenas por ano; não deixa de se estranhar que este ano tão poucas notícias nos tenham chegado de Famalicão. Um quarto livro de Rui Lage, um novo original de Rosa Alice Branco, o volume de piedade de Nuno Morais da Rocha e… pouco mais.
“Vissicitudes da crise…” pensei eu. No entanto, parece que essas vissicitudes realmente afectaram a editora de Jorge Reis-Sá.
Àparte de méritos e desméritos deste como autor, como editor, os seus méritos e desméritos são mais que evidentes.
Por um lado, frequentemente Jorge Reis-Sá publicou verdadeiras peças de lixo, nomeadamente no que toca aos novos autores, apostando em poesia ou pretensa poesia de todos os tipos e todas as qualidades.
As qualidades gráficas da editora também deixavam muito a desejar. Capas sem qualquer estilo que identificasse a editora, usando todo o tipo de fotografias vulgaríssimas, desenhos taxtativos, e, por vezes, capas sem conexão alguma com o conteúdo dos livros. Digamos que, se julgássemos os livros só pela capa, teria sido a ruína de “As Fábulas” de Fiama, ou de quase todos os que publicou de Ramos Rosa, etc.
Ainda assim, Jorge Reis Sá pode orgulhar-se de ter publicado muitos autores que outros editores não publicaram (Por questões de táctica, etc.), e de, no meio de muito lixo, ter realmente publicado verdadeiras obras-primas. A reter, as obras reunidas de Isabel de Sá e Rosa Alice Branco, vários originais de António Ramos Rosa, um dos mais interessantes livros de Maria Teresa Horta, o livro de Eduarda Chiote que recebeu o prémio Teixeira de Pascoaes, o último original de Fiama Hasse Pais Brandão, um original de Helga Moreira, outro de Jorge Sousa Braga, outro de Manuel Cintra, antologias de Adília Lopes, Al Berto, Carlos de Oliveira ou Pedro Homem de Mello, bem como os primeiros livros de autores como Tiago Araújo, tendo, portanto, sido ele a abrir as portas a autores que só mais tarde viriam a publicar noutras editoras, e portanto, a receber críticas (Nomeadamente de António Guerreiro, que só conta as bibliografias a partir da Averno.).
No meio disto tudo, há que ver que, mesmo sendo de gosto duvidoso, Jorge Reis Sá merece alguns méritos. Só porque é justo que assim seja.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

até arrepia...

I've seen the real atrocities,

Buried in the sand,

Stockpiled safety for a few,

While we stand holding hands.

I'm living in the Ice age,

I'm living in the Ice age,

Nothing will hold,

Nothing will fit,

Into the cold,

a smile on your lips.

Living in the Ice age,

Living in the Ice age,

Living in the Ice age.

Searching for another way,

Hide behind the door,

We'll live in holes and disused shafts,

Hopes for little more.

I'm living in the Ice age,

I'm living in the Ice age,

Nothing will hold,

Nothing will fit,

Into the cold,

No smile on your lips,

Living in the Ice age,

Living in the Ice age,

Living in the Ice age.

IAN CURTIS

joy division: ice age

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Wanda Ramos: Poe-Mas-Com-Sentidos

SENTIDOS CONSENTIDOS



Falar de Wanda Ramos (O que já não faço há quantos meses…) implica sempre falar de questões de aceitação por parte do público, da crítica e dos restantes escritores. E se é verdade que, em última análise, tudo isto são questões paralelas ao livro, também é verdade que em muito definem o destino deste.
O caso de Wanda Ramos, no entanto, acrescenta a estas questões paralelas uma mais: a relação da própria autora com os livros, e, concrectamente, com a sua poesia.
Precocemente desaparecida em 1998, em 1999 veio a lume o seu último romance, “Crónica com Estuário ao Fundo” (Caminho). Mas o seu último livro de poesia surgira já em 1986, este “Poe-Mas-Com-Sentidos” (1986, Ulmeiro).


Nesta edição é visível, nomeadamente através da nota final, a vontade da autora de realmente terminar ali a sua poesia. Isto porque “Poe-Mas-Com-Sentidos” repõe “Nas Coxas do Tempo”, que tivera edição autónoma em 1970, numa restrita plaquette onde se inseriam ainda desenhos de António Ferra; recolhe todos os poemas dispersos em jornais e revistas literárias, bem como vários poemas em prosa, provavelmente os posteriores a “Intimidade da Fala” (1983, &etc) que era consituído apenas por poemas em prosa.
Por outro lado, percebe-se que este é um final precoce, efectivamente:
Colocando Wanda Ramos no seu contexto, ela surge em 1970 com todos os entraves que uma edição de autor implica, e apresenta-nos uma poesia onde dois ecos são visíveis: o romantismo exacerbado de Florbela Espanca e o erotismo assumido de Maria Teresa Horta. Não sendo “Nas Coxas do Tempo” um mau livro (É, alias, do meu ponto de vista, um dos melhores momentos da autora.), perde um pouco do seu impacto pela imediata associação a estes nomes. Posteriormente, em particular em “E Contudo Cantar Sempre” (1979, Inova), estes ecos tornam-se mais diluidos numa voz que efectivamente começa a definir-se.
Ainda nos anos 70, recebemos os sururus de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge, que os próprios mais tarde haveriam de reconhecer como idiotices, mas que, para todos os efeitos, sempre causam determinado impacto num meio que tem pavor a não se renovar (Nem que seja pelo non-sense.); a poesia violenta de Al Berto que haveria de se tornar numa das mais originais da nossa literatura; e ainda alguns outros nomes, entre os quais o de Eduarda Chiote, que, passados estes anos, se percebe estarem mais relacionados, ainda que de forma ténue, com a poesia de 80 do que propriamente com a de 70, ainda que nela tenham surgido.
No meio disto, um livro em que há referências que demasiadamente se fazem sentir é para marcar uma pessoa.
Wanda Ramos terá chegado a esta conclusão. O facto de entretanto ter inciado o seu percurso como romancista, com “Percursos (Do Luachimo ao Luena)” (1981, Presença) e de neste se ter demonstrado realmente mais original do que na poesia (“Percursos” é, a meu ver, o melhor romance sobre um outro lado, o da mulher, da Guerra Colonial, depois de “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge.) também terá contribuído para que Wanda Ramos tenha decidido em definitivo dedicar-se a um projecto em que podia realmente ser boa, e que, aliás, a conduziu à História da Literatura Portuguesa.
“Poe-Mas-Com-Sentidos” é, portanto, a colecção última de poesia da autora. E uma boa colecção, mesmo assim.

A inclusão do primeiro texto da autora, que dista vários anos dos restantes (Segundo a nota final, este livro cobre um espaço de tempo entre 1968 e 1986.), funciona bem por tornar realmente clara a mudança de tonalidade nesta poesia: se inicialmente ela se nos apresenta simbólica e, por vezes, quase surrealizante, com imagens sucessivas onde o erotismo se torna uma espécie de mundo pairando sobre o mundo; na segunda secção, que dá título ao livro, é como se este mundo simbólico se tivesse infiltrado no real, sendo que as referências simbólicas encontram uma conexão com o real através do indivíduo, do sujeito poético. A cidade, a rua, a casa, são descritas e entrecortadas por “entradas em cena” de elementos que simbolizam invariavelmente o desejo. Por outras palavras: a percepção da realidade é filtrada pelo corpo, e apenas daí se pode tornar objecto de desejo ou contentor de um objecto de desejo.
Noutros poemas, a mesma situação acontece sem que o seu resultado seja o desejo, e, nesse caso, é por norma a tristeza e a solidão, também elas experienciadas fisicamente.
Este capítulo, “Poe-Mas-Com-Sentidos”, é também uma espécie de biografia da autora, contendo, além dos poemas mais emotivos ou descritivos de situações que o são, referências à “África (Também) Minha”, e todas as questões de aculturação e distância que uma mudança tão radical implica; e também a própria escrita, enquanto elemento constituinte do quotidiano, a necessidade das palavras para fixar “tantos destes itinerários perdidos nos anos/ achados a cada hora de entrar em casa” (pag.35).
Por fim, o último capítulo, “Brumas”, engloba seis poemas em prosa. A maior diferença em relação aos poemas em verso será provavelmente a densidade narrativa: esta torna-se mais definida a partir do segundo livro da autora, mas, nos poemas em prosa, surge definitivamente mais forte, como se se tratasse de uma “página de diário entreaberto” (título de uma sequência de “Intimidade da Fala”).
Uma questão importa ainda referir: a linguagem. Em Wanda Ramos dificilmente se encontram palavras para procurar no dicionário. Encontram-se, no entanto, palavras que por vezes parecem já ter caído em desuso, algumas abordagens mais distantes de uma erudição que a maioria dos autores procura. Para isto, tanto as suas raízes africanas, como uma leitura dos seus romances que a isto mesmo aludem, ajudam a entender que a linguagem, a “fala” de Wanda Ramos é mesmo profundamente “íntima”, precisamente por isto: é uma fala, um vocabulário, profundamente ligado às suas origens, numa relação quase umbilical, e que à escritora dificilmente passaria despercebida, uma vez que tinha o curso de Letras. Esta assumpção da origem da fala pessoal é, portanto, um dos elementos de maior interesse na poesia de Wanda Ramos, e poderá ter sido, para os delicados ouvidos do meio literário português, uma das razões para a considerar “vulgar”.
Se é certo que a autora atinge uma grande maturidade nestes poemas, e a presença do primeiro texto é, como se disse, um elemento que reforça esta ideia, a verdade é que se entende que houve alguns aspectos que claramente poderiam ter sido mais desenvolvidos. Provavelmente, a poesia de Wanda Ramos teria atingido um outro grau de qualidade ou de completude se tivesse sido continuada.
Enfim… pelo menos seguiram-se romances como “Litoral (Ara Solis)”…

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Poesia dos Anos 80

- Isabel de Sá
(1979- Esquizo Frenia, &etc)




-Fátima Maldonado
(1980- Cidades Indefesas- centelha)





-Luís Miguel Nava
(1979- Películas- moraes)



-Adília Lopes
(1985- Um Jogo Bastante Perigoso- edição da autora)




-Regina Guimarães
(1978- A Repetição- helastre)



-Rosa Alice Branco
(1981- A Mulher Amada- figuras)




-Helga Moreira
(1978- Cantos de Silêncio- edição da autora)


-Manuel Cintra
(1981- Do Lado de Dentro- ed. Presença)

Será No Próximo Século



O nosso amor arrasou cidades. Éramos
muito jovens e pensávamos assim.
O mundo pertencia-nos. Ninguém
percebia mas nós vivíamos contra
tudo - era um acto político.



Assim alguns seres no mundo
construíram vidas, amaram
e sofreram isolados, por vezes
espoliados, queimados na fogueira.


Mas o nosso amor resistirá
às fronteiras, aos muros de fogo
e à injustiça. Gostaríamos de viver
o tempo da verdadeira transformação,
da felicidade universal.





Isabel de Sá
Erosão de Sentimentos
1997- edições caminho
imagem: Isabel de Sá

A Urna no Deserto



Já não páras ao som das laranjeiras,
o silvo da paixão amorteceu,
o lacerar dos grifos
agita devagar a romãzeira,
horizonte vivaz anoiteceu.
Ardem sevícias nos pálios das comédias,
ruem gonzos nos pátios das contritas,
repúdios acontecem em vésperas de concílios,
impedem-se os quebrantos nas rotinas,
fere-se a uva no copo de cristal,
o bago não ateia contusões
nem cega a fruta o gume do cilício
e vibra o pulso ao impedir a dança.
Círios amortinados não acendem,
o leito não acolhe favoritas.
À sombra da cintura a magnólia
urge pavões,
cisma na voz ausente desespero,
range areia no triângulo da pata.
O trípode da morte encosta-se à coluna
e o vento não abriga, da roseira, a urna no deserto.



Fátima Maldonado
"A Urna no Deserto"
1989- edições frenesi (esgotado)




imagem: Graça Martins, "Ofélia"

O Corpo Espacejado



Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aospoucos conquistava um espaço cada vez maior, novoscontornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que,isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular.Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de quesó por abstracção se chegava à noção de um todo come-çavam a afastar-se umas das outras, de forma que entreelas não tardou que espumejassem as marés e a própriavia-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exer-cia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, queem breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos dequem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujobrilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Elemais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nascinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entantodetectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pe-quena alteração na direcção do vento era capaz de pôr denovo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés,mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intes-nos e o coração o que minuciosamente ele embrulhavaem celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador. A noite A noite veio de dentro, começou a surgir do interior de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro. Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros. Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, apesar de a noite também se desprender das coisas, havia nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo a treva nasalada.




Luís Miguel Nava
O Céu Sobre As Entranhas
1984- edições limiar


imagem: Francis Bacon

Meteorológica



Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter



Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas



Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)



A vida
é livro
e o livro
não é livre



Choro
chove
mas isto é
Verlaine



Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico





Adília Lopes
Florbela Espanca Espanca
1997- Black Sun editores




imagem: Paul Klee

Mutilações



Escreve agora a música
que os muros trauteiam
como eu dilapidei o meu tesouro.

Desenha agora a árvore
que rebentou por dentro.
Mostra agora o coração
com uma flecha no centro.

Vivi de brilho
e cuspi ouro pela boca.
Se ninguém me quis prender
foi porque não dei caça
não dei luta
nem falei em razão de força maior
nem sequer do futuro que me escuta.

Este livro custa a abrir
e aquela porta a fechar.
Desata agora a chorar
mesmo sem querer
mesmo sem sentir.
Chora por tudo
o que não está para vir.






Regina Guimarães
in Cem Poemas Portugueses no Feminino
edições Terramar




imagem: Alberto Péssimo

Retrato Puído nas Entranhas



Palmeiras inclinadas. Ao longe o casario.
É na água que o vejo, que sinto a cidade acordar.
Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas,
os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto,
mas do outro lado as mulheres não reflectem
o rosto ou mesmo a sua ausência.
São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão,
na curva da noite para o marido. Gastos os sonhos por usar.
Descorado pano que ficou ao sol. Nelas a cidade não acorda,
não regressam os barcos à tardinha.
Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável,
a raiva cega e às vezes um sorriso que sacode os ombros
porque até a tristeza tem um custo, uma esperança
na sola do sapato. Vejo-as todos os dias e é como se a vida
me atasse os pés, me anelasse os dedos. Como eu,
outras mulheres olhando o rio, desbordando o pano,
descozendo a sopa. Ama-se o homem que vira a esquina
connosco e sabe que não podemos fingir que a ferida
está fechada. As casas acendem.
E na água que vejo a sua luz descendo o rio.
As mulheres passam em silêncio para as casas,
atravessam a pele — deixam um retrato puído nas entranhas.
Olho o rio e não sei fingir que finjo tanto mar.





Rosa Alice Branco
Soletrar o Dia
2002- edições Quasi
imagem: José Rodrigues

()



Apenas do amor quero tão alto preço
do mais pouco ou quase nada peço
dias há em que o verso pede rima
como este a querer o que estima

e que não direi; pois que a vida
se se sente desordenada
ou em ardor que começa e finda
imprevisível em cada coisa e nada

ninguém assim o determina.
Apenas de quando em quando vestígios
por entre duas cidades, dois rios

um a norte, outro a sul que te imagina
ou balouça ou adormenta se o penso
querer dizer aqui o que não posso







Helga Moreira
Tumulto
2003- edições &etc


imagem: Armanda Passos

()



E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
foi-se o amor chegou o siso
e eu
que não nasci para ter juízo

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas está, dê para o que der
e doa a quem doer

Passam sanguessugas pelos trilhos da memória
umas são mortas, outras são vivas,
outras são glória
de já não existir e teimar em persistir
e eu vou ao vento, sou palmeira seca,
sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim
sou uns dias teu, outros assim assim

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas sente, e já pouco quer
para além de seres mulher

E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou
mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música
perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa
é coça umbigo, vai ter que parar

Mas dói-me o teu ventre que não afago
como quem não sabe nadar
e hoje é de festa, amanhã é de mar
é de mar






Manuel Cintra
Não Sei Nunca Por Onde
2004- edições Quasi
imagem: Mário Botas

domingo, 18 de Outubro de 2009

Ídolos de Domingo

Noite alta de domingo, passei o dia todo a evitar fazer o programa do gordo (Comer e ver-televisão), primeiro porque não quero precisamente ficar gordo, segundo porque até a Fox Life está uma seca.
Mas pronto, é noite, nada que fazer… e na sic está a passar o Ídolos. Lembro-me das grandes gargalhadas que dei há alguns anos quando foi a primeira edição, precisamente aquela em que uma rapariga com reportório de show-girl insultou o Luís Jardim ou então a Luciana Abreu conseguiu chegar longe, num concurso de cantores, para mais tarde se tornar Floribella. Momentos destes certamente, não indo para o cancioneiro, pelo menos chegam ao imaginário de uma população como a nossa, em que o vazio é ainda um belo ócio.
Tudo bem. Vamos lá ver o que há por aqui. Para começar, apresentadores e juri alteram-se. Em vez o Pedro Granger e da Sílvia Alberto, estão a Cláudia Vieira e o João Manzarra. Ou seja, por mais que os apresentadores tenham mudado, o seu efeito em mim em nada mudou: ainda há um que me irrita consideravelmente (Cláudia Vieira sucede, portanto, a Pedro Granger.) e há outro que não deixa de me parecer um tanto mal aproveitado (De Sílvia Alberto passa para João Manzarra.).
O juri, idem-aspas. Não percebo bem qual é esta mania que a sic tem de arranjar para juri pessoas que não percebem nada de música. Na primeira edição tínhamos o Luís Jardim que já trabalhou, é bom lembrá-lo, com a Bjork, a Vanessa Mae, e por aí. Neste caso, temos um Luís Jardim português, que cabe a Philipe Laurent. Depois, temos três pessoas que pouco ou nada percebem de música: Manuel Moura dos Santos, manager, que transita da primeira edição para presidente do juri nesta, Roberta Medina, organizadora do Rock In Rio, ou seja, empresária e um outro gajo que parece que é director dos canais da sic, cujo nome me escapa, mas cuja presença é, sem dúvida, a mais irritante, porque afinal é quem menos está relacionado com música e é quem faz os comentários mais irritantes e pretensiosos.
Agora os concorrentes. Truncando Luiza Neto Jorge: “chorar ou rir? Um medo tal!”.
Bom, sinceramente, do que vi, achei assustador. Eu percebo que todos nós, e isso incluiu-me a mim, achamos engraçado cantar no banho, e que alguns, e isso excluiu-me mas inclui a Rachel de Friends, gostam de fingir que o gel de banho é uma Grammy para Melhor Artista Revelação. Mas daí até estar a grunhir ou guinchar ou ranger em frente a uma câmara que nos mostra ao país todo, parece-me que há uma considerável distância.
Há de tudo. Uns esquecem-se da letra, outros cantam de uma forma afectada, outros berram para mostrar boa ginástica de voz, outros dançam e murmuram qualquer coisa, outros grunhem e acham surpreendente que lhes digam que não é bom ou boa, outros cantam ópera e deixam cair o queixo quando lhes dizem que querem um ídolo pop, outros levam roupas atrevidas a ver se caem nas boas graças do juri, outros começam a chorar quando lhes dizem que não, outros choram quando lhes dizem que sim... Enfim. No meio disto tudo, lá apareceu um ou outro gato pingado que até cantava bem.
Última nota: a versão americana passava na Fox Life. Não é que os concorrentes fossem melhores, mas nada substitui aquelas brigas idiotas do Simon com a Paula Abdul. Também nada substitui aquela emotividade histérica da Paula Abdul. Nem as tendências espiritualistas da Kara DioGuardi.
Portanto, entre concorrentes malucos, juris que não percebem nada e ainda por cima não se chateiam uns com os outros e uma apresentadora desenxabida, deixo duas sugestões à sic:
A primeira prende-se com o lugar onde filmam as audições e as galas: há um lugar no Porto chamado Hospital do Conde de Ferreira. Não seria má ideia irem para lá.
A segunda tem a ver com o juri: mandem importar a Paula Abdul. Pode ser que alguém comece a pôr na ordem o gajo dos canais da sic.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

parabéns à sibila

Agustina Bessa-Luís faz hoje 87 incríveis anos.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Barcas Novas



En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar.

Joao Zorro


Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
os homens que levam guerra

Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas




FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Barcas Novas
1967- edições Ulisseia, colecção Poesia e Ensaio
fotografia: DANIEL BLAUFUKS

Muse: The Resistance

POLÍTICA LÍRICA





O percurso dos Muse, mais do que a maioria das bandas de rock alternativo, progressivo ou o que quer que seja, apresenta-se-nos dos mais interessantes. Mormente porque a cada álbum percebemos um crescimento muito equilibrado, ou seja: nenhum álbum seria possível sem o anterior, uma vez que se um lança as bases para alguma característica, o seguinte vem imediatamente levá-la ao seu expoente máximo.
E se "Origin Of Symmetry" parecia, e parece ainda, um álbum perfeito, foi estranho ver "Absolution" superá-lo, e depois "Black Holes and Revelations" superar o anterior.
"Black Holes and Revelations" era realmente o cúmulo de toda a tensão e "loucura" que os álbuns anteriores mostravam já deter, mas acrescentava-lhes ainda um ritmo inesperado, que parecia não ser alheio à boa musica pop, por exemplo em "Supermassive Black Hole" ou "Starlight".
A questão estranha, quando se termina um disco dos Muse é pensar que já está tudo feito, e será difícil acrescentar alguma coisa.
Aparentemente, Matt Bellamy é inesgotável e contraria sempre essa ideia, algo a que já começamos a habituar-nos.
Outro aspecto que me interessa focar, antes de passar a umas notas sobre "The Resistance", álbum acabadinho de lançar, é também a da situação dos Muse entre as outras bandas:
É difícil acopulá-los com alguém. Se muita gente os coloca num certo imediatismo aos Placebo, parece-me que nos Muse não existe aquela pulsão sexual e as reminiscências glam que encontramos no colectivo de Brian Molko.
Mas a comparação parece-me de longe menos indecorosa do que quando os comparam aos Green Day. Percebo as razões mas não as aprovo: se é um facto que as letras de Bellamy são contínuamente interventivas e profundamente políticas, a verdade é que as qualidades de escrita do vocalista estão anos-luz à frente da atitude poser-emo de Billie Joe Armstrong, uma vez que no primeiro encontramos a política ou consciência social associada a um lirismo fora de série (Com frases como "Love is our resistance", mas já lá vamos.), no segundo encontramos chavões que nos remetem para uma espécie de assemblage de textos de blogs ou colunas mais fáceis sobre política. Portanto, ao passo que no primeiro, a visão politizada é uma forma de comunicar ideias, no segundo, é uma forma de chamar a si determinadas características que percebemos logo não serem verdadeiras (Ou, por assim dizer: Billie Joe Armstrong não percebe nada de política.).
Por último, outra das comparações frequentes que surgem sobre os Muse é com Rufus Wainwright, e, estranhamente, mesmo não achando que é muito exacta, será talvez a opção mais confirmável: Wainwright é igualmente politizado, as suas composições recuperam muitas vezes sonoridades características do barroco, principalmente quando as canções são guiadas pelo piano, e a voz de ambos é um tanto andrógina.









Concrectamente, "The Resistance" é o sucessor de "Black Holes and Revelations" e é também herdeiro de HAARP, o cd-dvd ao vivo, que, podendo parecer que não, também tem aqui o seu peso. Àparte disto, o facto da banda surgir aqui no cargo da produção pela primeira vez é também premonitório. Já se sabe que, mais cedo ou mais tarde, por uma questão de liberdade, talvez, a maioria dos artistas e das bandas acaba por fazer isto. Tori Amos e Lou Rhodes são apenas dois exemplos.
O álbum abre com "Uprising", single de avanço, e uma espécie de assimilação daquilo que iremos ouvir a seguir. O som no pico da agressividade, a letra profundamente revolucionária, alguma electrónica a marcar o ponto, a voz de Bellamy a transmitir perfeitamente a tensão, e uma mensagem muito clara: THEY WILL NOT CONTROL US!!!
De facto, quem esperava que a contestação por parte de Matt Bellamy abrandasse agora que Bush finalmente largou a cadeira e esta foi ocupada por Barack Obama, estava definitivamente errado. Afinal, a América mudou apenas de presidente, mas os hábitos do povo perpetuam-se. Mas isso já todos nós sabemos.
Algumas canções seguem ainda uma via mais orquestral, caso de "United States Of Eurasia" ou "Undisclosed Desires", sendo que, ao contrário da tendência geral, estas canções não são necessariamente as ditas baladas. O primeiro exemplo citado é, em termos de letra, um dos mais analíticos e sociais de "The Resistance".

Outra característica notável é que o novo álbum parece aproximar-se de um conceito que tem sido abordado por outras bandas (Incluindo os Green Day.), de Ópera-Rock. É certo que os Muse sempre fizeram canções longas, mas não é esse o critério: muitas das canções surgem ligadas por sons, instrumentais ou não, que lhes sugerem alguma continuidade. Além disto, as últimas três faixas (Curiosamente estão as três entre as mais curtas.) formam um conjunto, "Exogenesis Symphony"- (Overture), (Cross-Pollination) e (Redemption), respectivamente. Ou seja, aqui temos uma estrutura que organiza a longa canção mais ou menos como uma peça ou um recital.
A aceitação ou inclusão da música erudita foi, aliás, sempre uma característica dos Muse.
E se, acima, referi as influências pop que se viam em algumas faixas de "Black Holes ans Revelations", é certo que elas existem ainda aqui, nomeadamente em "I Belong To You (Mon Coeur S´Ouvre A Ta Voix)", notando-se ainda uma amálgama de chanson e talvez de algum soft jazz. Mas uma amálgama boa.
A conclusão é, portanto simples. O milagre da criação foi feito de novo.
E se 2009 fica marcado pelo regresso aos discos de muitos nomes maiores da música, o dos Muse está já condenado a ser um dos melhores.

Ao longo deste tempo, fui deixando de escrever no final uns números de 0 a 20 que eram uma espécie de classificação, e quando tiver paciência vou aos posts antigos retirar esses números. Mas se tivesse que dar um número a "The Resistance" seria 21.